Friday, 2 July 2010

O fim do mundial de Portugal e as questões para o futuro

A nossa selecção já voltou para casa. Ainda não se sabe o que vai acontecer com Queirós/Queiroz (parece-me que fica até 2012, a federação não tem dinheiro para estar a pagar dois seleccionadores) mas não tenham dúvidas que temos problemas no plantel. Problemas não só devido a disputas pessoais (Simão-Ronaldo, Queiroz-Ronaldo, Queiroz-Deco, Queiroz-Liedson, Ronaldo-“pessoas que não são o Ronaldo”) mas também, assumindo que Queiroz fica, ao estilo de jogo.

Agora, quero começar por afirmar: Queiroz é um génio. Não é um génio no sentido geral de treinador de futebol, como Mourinho ou Ferguson, mas é um génio em como organizar uma defesa – podem ter a certeza que Portugal tem a melhor defesa deste mundial. Mesmo que tivéssemos sofrido mais golos não deixávamos de ter a melhor defesa. Eduardo, R. Costa/Miguel/Ferreira, Carvalho, Alves e Coentrão estavam treinados até ao último milímetro, passou na televisão alemã um programa desportivo em que mostravam com imagens vistas de cima como a colocação da defesa e dos trincos portugueses era sempre impecável, como conseguíamos defender perto da baliza e, no entanto, raramente ceder oportunidades de golo. Basta ver que o melhor período do Manchester United foi quando Alex Ferguson se ocupava só da gestão do plantel e das tácticas ofensivas enquanto Queiroz, no papel de assistente, organizava a defesa – defesa essa que ficou muito pior desde 2008 apesar dos jogadores serem exactamente os mesmos (Van der Sar, Neville/Brown, Ferdinand, Vidic, Evra). Isto é o efeito Queiroz – na minha opinião nunca tivemos uma defesa tão forte como esta e isto apesar da posição do lateral-direito estar sem um verdadeiro dono. Mas é claro que todo este jogo defensivo tem um custo.

Tudo podia ter sido tão diferente. Ainda ninguém mencionou o facto do golo da Espanha ter sido marcado em fora-de-jogo! É claro que os espanhóis estavam a atacar mais mas, até ao golo de Villa, Portugal também teve oportunidades (Tiago ainda na primeira parte; o ressalto depois de um passe do Dr. Almeida na segunda). Podemos culpar Queiroz por não ter um plano B mas a verdade é que o plano A, antes do erro de arbitragem, estava a funcionar. É evidente que, depois do que se passou nos jogos Alemanha – Inglaterra (golo por assinalar) e Argentina – México (golo em fora-de-jogo), os crápulas da FIFA, essa representação permanente do demónio na terra, devem ter feito pressão sobre os realizadores das emissões dos jogos para não mostrarem qualquer decisão contenciosa. O resultado foi que não houve a tradicional imagem da posição do avançado com a linha a mostrar se estava em fora de jogo. Ainda agora a FIFA tenta esconder o que se passou (procurem no Youtube por “Spain Portugal offside goal”; depois experimentem “world cup 2010 great goal” para verem a diferença; é curioso como só algumas imagens parecem precisar de censura). Em todo o caso encontrei isto no Bild, o jornal alemão, é em desenho portanto a FIFA que se vá encher de moscas.


Como o Filipe já disse, e eu concordo, a táctica de Queiroz até ao golo estava a funcionar: Portugal defendia mas conseguia sair em contra-ataque de vez em quando e preocupar os espanhóis. No entanto, a partir do momento em que ficámos a perder as decisões de Queiroz foram horríveis: sobravam-lhe duas substituições, portanto trocou um trinco por outro (Pedro Mendes por Pepe) e um avançado (Liedson) por um extremo (Simão) – isto depois de ter gasto a primeira substituição para tirar um avançado (Dr. Almeida) e pôr um extremo (Danny) em campo. Como diz o magnífico Zonal Marking (recomendado para sempre aqui pelo je) na análise do jogo, comparem isto com as situações de desespero de Scolari:

(1) Euro-2004, a perder contra a Inglaterra nos quartos-de-final, saíram Miguel (lateral-direito), Costinha (trinco) e Figo (médio e estrela da equipa, estás a ver Queiroz?) para entrar Rui Costa (médio ofensivo), Simão (extremo) e Postiga (supostamente um avançado mas não para quem o viu a jogar pelo Sporting). O Deco jogou 40 minutos a lateral-direito!
(2) Euro-2004, a perder contra a Grécia na final, saíram Miguel (lateral-direito), Costinha (trinco) e Pauleta (avançado) por Paulo Ferreira (lateral-direito), Rui Costa (médio-ofensivo) e Nuno Gomes (avançado). Aqui Scolari foi menos arrojado mas já tinha Figo, Deco e Ronaldo em campo e mesmo assim trocou um trinco por um número 10.
(3) Mundial-2006, a perder contra a França na meia-final, saíram Miguel (lateral-direito), Costinha (trinco) e Pauleta (avançado) por Paulo Ferreira (lateral-direito), Simão (extremo) e Postiga (pseudo-avançado). Mais uma vez houve pelo menos uma troca para a equipa ficar mais ofensiva.
(4) Euro-2008, a perder contra a Alemanha nos quartos-de-final, saíram Moutinho (trinco pequeno demais), Nuno Gomes (avançado) e Petit (trinco) por Raul Meireles (trinco mais ofensivo que Moutinho), Nani (extremo) e Postiga (anda lá pela frente). Estas talvez tenham sido as piores substituições de Scolari e mesmo assim são muito melhores que aquelas que Queiroz fez contra a Espanha.

Queiroz fez então substituições idiotas – como foi possível que o Deco ficasse no banco, quando estávamos a precisar de ganhar o meio-campo? Pelo menos devia ter substituído o Pepe, em vez do Pedro Mendes que é um jogador que não é necessário quando se está a perder (um pouco como Costinha que Scolari substituía sempre). E tirar o Hugo Almeida quando só tinha mais um avançado no banco também foi pateta, até porque ainda estava a render. No que toca à utilização dos jogadores, notou-se também neste mundial a falta de Nani – Danny nunca conseguiu chegar ao mesmo nível e acabou por ser ele a sugar os minutos de jogo de Nani. Portanto trocámos um desequilibrador nato por um pseudo-número “10” que só é estrela na Rússia...

Finalmente, será mesmo possível uma equipa rodada para jogar um futebol defensivo, perto da grande área, que jogou assim durante 240 minutos (contra a Costa do Marfim e desde o princípio do jogo contra o Brasil), se transforme de um momento para o outro numa equipa ofensiva que precisa de marcar golos? A táctica de Queiroz só funcionava se Portugal marcasse primeiro ou se conseguíssemos chegar a penaltis. Pusemos os ovos todas na mesma cesta, e a cesta foi ao chão. Mas o pior de tudo foi que Queiroz nem sequer levou a ideia até ao fim óbvio, se o tivesse feito eu aceitava melhor. Sabendo que os espanhóis só tinham 6 bons cabeceadores na equipa (Pique, Puyol, Capdevilla, Alonso, Ramos e Busquets) e um guarda-redes que tem estado algo nervoso, como é que não aproveitámos todas as oportunidades (livres, cantos) para centrar para a área onde estariam 7 alvos: Bruno Alves, Carvalho, Ronaldo, Pepe, Dr. Almeida, Tiago e Ricardo Costa? Podem ter a certeza que, se a Alemanha jogar contra a Espanha na meia-final, vão identificar este ponto fraco e vão bater nele até ao fim. Nós, num dos poucos jogos em que poderíamos ter dominado o adversário pelo ar, tínhamos o Cristiano Ronaldo a 40 metros da baliza a tentar controlar a jabulani e a assustar os espanhóis menos do que um gatinho a beber de um biberão. Porquê? Porquê? Porquê?!

 Iker Casillas avistou Cristiano Ronaldo a 40 metros. Preparava-se para bater um livre.

Eu não acho que possamos continuar assim, é muito bonito não sofrer golos mas temos que ser capazes de marcar uns de vez em quando, sem simplesmente estarmos à espera de erros do adversário. Não quero ser um adepto de uma equipa inspirada pela Grécia de 2004. Para isso prefiro voltar ao nosso estilo de jogo de 1996-2000, algo ingénuo mas divertido. Infelizmente, não me parece que Queiroz seja capaz de mudar, continuará sempre a ter medo, cão velho não aprende truque novo. Os jogos de qualificação para o Euro-2012 começam já em Setembro portanto veremos em breve (Portugal está no grupo H com Dinamarca, Noruega, Chipre e Islândia; primeiro lugar passa directamente para o torneio, segundo lugar joga playoffs).

Quanto aos jogadores, o Filipe já disse tudo. Tive imensa pena de Deco, acho que merecia mais, apesar da equipa ter jogado muito melhor quando estava banco. Devíamos pelo menos convocá-lo para um último jogo em Portugal pela selecção (num amigável ou contra Chipre). Ricardo Carvalho, Liedson, Paulo Ferreira e Simão também são incógnitas para o Euro-2012, terão todos entre 32 e 34 anos na altura. Isto para além do treinador, claro.

O único ponto sobre o qual discordo com os outros bloggers aqui do futLOL é sobre Cristiano Ronaldo. Ele é sem dúvida intragável pessoalmente, um péssimo capitão e não devia marcar livres a mais de 30 metros de distância da baliza. No entanto, teve sempre um papel ingrato nesta equipa, foi obrigado a jogar a quilómetros de distância dos outros médios e, excepto quando Meireles ou Tiago o acompanhavam, ficava com Danny, Simão ou o Dr. Almeida por perto. Danny nunca foi grande coisa, Simão fez um péssimo, péssimo mundial (o comentador da BBC sugeriu durante o jogo contra a Espanha que Portugal o substituísse para “passar a jogar a 11”) e o Dr. Almeida muitas vezes perde a bola e depois dá porrada nos defesas. Mas... e isto é um grande mas... o Ronaldo foi o nosso jogador mais perigoso contra a Costa do Marfim, teve um papel importante no jogo contra a Coreia do Norte, e manteve, sozinho, quatro defesas brasileiros entretidos durante 90 minutos. Não jogou bem contra a Espanha, certo, mas também é verdade que os espanhóis quase só se preocupavam com ele visto Simão/Danny não criarem perigo absolutamente nenhum (aliás quando o Dr. Almeida fez um sprint com a bola, deixou os defesas espanhóis absolutamente atónitos). Portanto não tenho uma visão tão negativa como a vossa do que o Cristiano Ronaldo fez, estou mais de acordo com Mourinho (embora este último tenha água no bico, claro). Não quer dizer que me pareça que ele esteja a ser bem aproveitado pela nossa selecção: não devia jogar a ponta de lança, não devia ser capitão, não devia marcar livres de 45 metros de distância, não devia ser intocável (ser substituído de vez em quando faz-lhe bem)... será que o nosso seleccionador tem estômago para fazer isso tudo? No caso de Queiroz, não acho que precisem de saber o que penso.

1 comment:

Anonymous said...

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